Ouvia a voz das crianças rindo enquanto jogavam rouba monte com Thiago e minha sogra na sala. Enquanto isso, eu estava estirada entre as almofadas coloridas do antigo quarto de solteiro de Thiago.

Peguei o celular. A tela inicial trazia uma recordação. Era uma imagem simples. Uma flor branca que contava uma história que eu não podia esquecer.

Tirei aquela foto numa quinta-feira, depois de duas semanas difíceis em que meu filho passou muito mal. Naquele dia, ele acordou melhor e pediu para ir à praia.

Topei na hora.

Eu sempre aproveito esses passeios para estimulá-los a explorar a natureza, a aprender um pouco mais sobre a história, a biologia e a vida em comunidade.

O destino? O pequeno escolheu. Fomos a um restaurante que eu costumava ir com o meu avô e os meus pais.

Enquanto a gente esperava a comida, meu filho falou:

Vamos dar uma passeada?

Só se for aqui em volta, respondi.

Saímos eu e meus filhos de mãos dadas.

A espera se tornou um momento de observar as grandes castanheiras que sombreavam o terreno. Meus filhos admiravam as orquídeas coloridas florindo os caules daquelas frondosas árvores.

Naquele velho restaurante, ouvindo o riozinho, eu sentia uma paz inigualável.

Enquanto nós andávamos, algo nos chamou a atenção. Uma orquídea branca, grande, destacava-se no vaso rústico, rodeada de verde.

Era uma orquídea comum. Mas era tão linda!

Meus olhos não saíam dela, quando, de repente, ouvi:

— Linda, né, mãe? — disse minha pequena.

— Perfeita — respondi.

Naquela hora, reparei que tinha algo diferente naquela flor e, então, pedi:

— Meus amores, olhem um pouquinho mais.

Meu filho perguntou:

— O quê, mãe? O que você quer que a gente veja?

Eu apontei para o vaso da orquídea pendurado no tronco da antiga árvore. Ao ver minha mão, minha pequena falou:

— O jarro, mãe?

— Isso, meu amor.

— O que tem no jarro, mamãe? — meu menino perguntou.

— Filhos, olhem aqui. O que esse jarro está parecendo para vocês?

As crianças começaram a olhar, quietinhas, mas em suas sobrancelhas enrugadas pude ver que não estavam entendendo nada do que eu queria dizer.

Dei um suspiro e rompi o silêncio:

— Isso aqui já foi um pneu de bicicleta. Vocês perceberam?

— Não! — minha filha falou.

— Claro que não! — meu filho concordou.

— Talvez um menino branquelo como você, ou uma menina de sorriso iluminado como você, tenha passeado muito com esse pneu aqui há um tempão atrás.

— Talvez, depois de muito uso, esse pneu tenha ficado velho, murcho. Talvez tenha sido trocado por um pneu novo e tenha acabado esquecido num canto, perdendo a vida. Talvez ele tenha ficado ali, entre a esperança de um dia voltar a rodar cheio de vida e o canto escuro e empoeirado onde foi largado.

— Até que uma pessoa com os olhos bondosos, que ama flores e ama enfeitar a vida, viu nesse pneu algo além da sujeira e das teias de aranha. Ao olhar para ele, viu uma função linda e o transformou nesse suporte rústico que hoje exalta e abriga essa orquídea maravilhosa que a gente está admirando.

Apertei as mãos das crianças. Enchi o pulmão de ar.

Os olhos marejaram.

Na hora em que eu contava essa história para os meus filhos, percebi. Na verdade, a lição era para mim.

Então, me vieram à mente as cenas do livro, Quem mexeu no meu queijo?

Me senti dentro delas.

Vi as pessoinhas do livro vivendo em busca de uma situação do passado que não volta, com medo de assumir que aquilo que existiu não existe mais.

Então, confessei baixinho. Muitas vezes eu sou essa pessoinha, apegada ao passado, com medo de largar o conhecido, ainda que hoje seja incompatível, já difícil de tolerar e inadequado para a minha vida. Mesmo assim, me prendo a isso. Acho que isso é um gatilho tolo meu para não sofrer.

Naquela hora, enquanto eu olhava para aquele jarro, uma pergunta soou dentro de mim: Será que eu não sou esse pneu velho, insistindo em me prender às histórias felizes de um passado que já não existe? Será que existe espaço para mim, para a minha vida, para me tornar esse vaso lindo e viver uma nova história ainda mais feliz?

Enquanto eu continuava ali, parada, olhando a flor, as crianças saíram correndo a brincar.

E eu fechei os olhos, já com a voz embargada. Como eu não conseguia falar, consegui ouvir. Sentia a voz doce da Taya Gaukrodger cantando Oceans:

You call me out upon the waters,

the great unknown, where feet may fail.

And there I find You in the mystery,

in oceans deep, my faith will stand.

Fiquei ali, pensando em como é difícil dar um passo quando não sabemos o que nos espera, principalmente quando nossas decisões impactam mais do que apenas a nossa vida. Como é difícil enfrentar a escuridão da travessia com nossos pequenos no colo.

Então, lembrei da pessoa de olhos bondosos que olhou para aquele pneu e viu o que ele podia se tornar.

Talvez alguém lá em cima também esteja me olhando assim. Talvez eu só precise aceitar florescer onde Ele me puser.

Preciso ter fé. Ter coragem para pisar e aceitar que meus pés podem falhar. Mas, que, mesmo assim, eu vou continuar

Preciso ser humilde para entregar o meu destino a Deus e pedir a ele que me guie nas águas profundas onde não consigo enxergar.

Preciso confiar.

No fundo, eu sei que o labirinto é para mim, não para Ele.

A verdade é que é a escuridão das incertezas que faz brilhar a nossa fé.

É nela que a gente aprende a seguir o chamado de Deus para a vida que Ele quer para nós.

Isso não quer dizer que não sou grata ou que o tempo em que vivi como um pneu de bicicleta tenha sido ruim, nem que tenham sido ruins as histórias que construí, as pessoas que ajudei.

Mas, certamente, quer dizer que estou de volta ao labirinto, às águas profundas. Só que não vou sozinha, mas sim com Deus.

Respirei fundo.

Senti um cheiro gostoso do café fresco, coloquei o celular do lado. Fiquei pensando naquela foto, naquele jarro, naquela orquídea.

Até que um abraço quentinho me despertou. Virei e encontrei um rosto branquinho sorridente de um menino lindo com duas canetas na mão.

— Mamãe, eu trouxe para você. Quer?

Eu falei:

— Quero.

E assim voltei a escrever as minhas cartas como uma jardineira de palavras cultivando flores simples, mas cheias de vida, para compartilhar com você.