As crianças estão numa fase gostosa aqui em casa: a fase de começarmos a assistir filmes juntos.

Eu amo Sherlock Holmes.
Amo tanto que comprei a coleção inteira, novinha, e dei para a Maya.
E ela lê, comenta, conta as histórias… então resolvemos trazer isso para a sala e assistir aos filmes juntos.

Em um deles aparece uma lupa.
E, na hora, o Cauã, com aqueles olhos curiosos de quem ainda vê o mundo cheio de grandeza e aventuras, disse:

Mãe, eu quero uma lupa pra brincar de detetive.

E pronto. Foi o suficiente.
Ele grudou nessa ideia como só as crianças conseguem fazer.

Meu marido não teve outra opção e, claro, comprou a lupa.
Afinal, por que impedir o pequeno detetive, e Chase, seu fiel escudeiro, de descobrirem as pistas que resolvem os mistérios do quintal?

Quando o Thiago chegou com a lupa, o Cauã veio correndo para o meu escritório:

Mamãe, mamãe, olha o que eu ganhei!!!

Disse meu filho, colocando a lupa a um palmo do meu rosto.

Deixei o computador, sentei o pequeno no meu colo e respondi:

Que massa, filho!!!

Ao olhar para aquele objeto de vidro, algo me puxou para dentro e…
voltei no tempo.


A menina da lua e das estrelas

Por instantes, me vi pequenininha de novo, na idade dos meus filhos.
Cabelos lisos e volumosos, sorriso fácil e uma imaginação tão grande que me mantinha no céu, à parte do mundo.

Eu era aquela criança meio diferente (pra não dizer estranha), apaixonada por histórias, que vivia com um livro nas mãos e a mochila sempre cheia deles nas costas.
Uma típica criança piolho de biblioteca.

Devorava livros de experiências científicas, astronomia e qualquer coisa que falasse do céu, do espaço, daquilo que existe acima de nós.

Até que, um dia, muito convicta, decidi:
vou fazer meu próprio telescópio.

Eu queria ver as estrelas.
Queria entender o brilho delas, as formas, os contornos.

No sítio do meu pai, em Viana, subindo para Domingos Martins, o céu parecia mais perto da gente.
Eu sentava na varanda da casa do campo, tão pequena, e ficava procurando identificar as constelações ao longe.

Talvez por isso meu pai tenha me dado o nome de Luana.
No fundo, acho que ele sabia que eu era essa criatura da lua, do céu, que se perdia no infinito azul mesmo sem voar.

Pois bem: eu queria um telescópio.
E, como sempre fui uma criança que “dava um jeitinho”, contei com pessoas que apoiavam as minhas maluquices.

Minha mãe, a verdadeira Tinker Bell, a pessoa mais criativa que eu conheço.
Meu pai, que sempre dizia “faz mesmo!” — fosse peça de teatro, telescópio ou tapeçaria.
E o meu tio Humberto, que entrava e me ajudava nas minhas expedições mais memoráveis.

Num domingo, no culto no lar, na casa da tia Malile e do tio Humberto, levei os rolos de tecido que eu e minha amada Tinker Bell tínhamos separado para montar a estrutura do telescópio.

Mas faltavam as lentes.

E adivinha com quem eu fui pegar as lentes?

Com ele, claro.

O tio Humberto sempre teve ótica.
Ele me levou para a ótica que ficava na frente da casa dele.
Escolhemos as lentes. Faltava só ajustar os tamanhos. Mas já estava tudo certo.

Dias depois, o tio me ligou: as lentes estavam prontas.
E o meu telescópio ficou maravilhoso.
Profissional, de verdade.

Eu ainda pintei, enfeitei, deixei lindo. Fiquei toda orgulhosa.
Era um trabalho lindo: meio cientista, meio artista (aquela mesma combinação improvável que me acompanha até hoje).

Quando olhei para a lupa do Cauã, eu vi o meu tio.
A lente da lupa me lembrou o meu telescópio e o meu tio.

Meu tio Humberto sempre esteve ali: nos meus planos malucos, nas gincanas da escola, nas doações impossíveis, nas idas e vindas enquanto meu pai estava trabalhando.

Ele tinha aquele humor sacana, leve, engraçado.
Fazia piada, ria, soltava um pum alto do nada e gargalhava.
Gostava de comer, de viver, de jogar baralho, de rezar, de cantar, de estar junto, de ajudar.

Era o tipo de pessoa que você sabia que podia contar.
Qualquer hora, qualquer dia, em qualquer lugar.

Enquanto via a imagem viva do meu tio em tantos momentos, ouvi:

Mamãe!!!

Terra chamando, Luana!

Uma voz me trouxe ao presente.
Era o meu pequeno detetive, me puxando para brincar.
Dei uns beijinhos, achamos umas pistas escondidas e, depois, voltei a trabalhar.


A ligação

Mais tarde, na academia, enquanto eu fazia meus exercícios (afinal, preciso perder os 30 kg que ganhei nos Estados Unidos), meu telefone tocou.

Uma cliente.

A sentença dela tinha saído na sexta.
Por que ela estava me ligando insistentemente?

Mensagens de outro número…
Chamadas seguidas…

Quando a advogada é muito procurada, pode saber: deu merda.

Anos atrás, eu teria largado o exercício e atendido.
Mas hoje, minha saúde é prioridade.

Terminei o treino e então ouvi.

Era problema sério.
Divórcio contencioso, nuances complicadas — um tipo de caso que eu não pego mais.
A maior verdade é que eu pago para não chegar nem perto.

Sou emotiva, me envolvo, sofro junto.

Mas antes de ser advogada, eu sou humana.

E do outro lado havia uma mulher em desespero.
Chorando.
Perdida.
Sozinha.

Eu podia simplesmente repassar para uma colega e deixar para lá.
Mas…

Eu lembrei do meu tio.

Meu tio acolhia.
Mesmo quando não era obrigação.
Mesmo quando não tinha nada a ganhar com isso.

E então fiz o que sei que ele faria:

Ouvi.
Acolhi.
Orientei.
Dei caminhos.
Fui menos advogada e mais humana.

Quando a ligação terminou, o adeus foi bem mais leve que o início.
E eu senti que tinha feito o certo.


O sonho

Naquela noite, eu sonhei com ele.

Sonhei que estava na casa dele, na cozinha, a tia Malile brincando com as crianças.
As crianças correndo, ele trazendo alguma coisa que eu não lembro.

E eu dizendo:

Tio, para de mimar esses meninos!

E ele, com aquele sorriso largo:

Que nada! Padrinho é pra essas coisas!

Ele foi meu padrinho de casamento.
Nunca conheceu a Maya.

Mas um dia a Maya acordou e me disse:

Mãe, sonhei com o Humberto. Acho que é o tio Humberto da tia Malile.

Eu perguntei:

Como ele era, filha?

E ela o descreveu:

“Um vovô gordinho, de cabelo curtinho, meio branco, que estava comendo e soltava pum.”

É ele mesmo.
Sempre foi ele.

O Cauã ainda era muito pequeno quando ele partiu.
Mas, no meu sonho, ele estava ali, inteiro, vivo, rindo, como sempre.

E, quando disse que agora também era padrinho dos meus filhos…
Eu senti que era de verdade.


O tio que ainda mora aqui

O tio Humberto é uma pessoa tão especial que faz questão de estar próximo mesmo quando já não está entre nós.
Ele se mantém vivo.

Pelo exemplo.
Pelo amor.
Pelo jeitinho.
Pelas memórias que vêm com uma lupa na mão e um menino querendo ser detetive.
Pelos sonhos que mostram que ele continua vivo, presente e cuidando da gente, mesmo do lado de lá.

Minha tia Malili — que deve estar lendo esta carta e, assim como eu, chorando — sempre diz que tenho sorte de sonhar com ele.

E eu tenho mesmo.

Talvez eu sonhe mais com ele porque minha cabeça sempre foi um pouco da lua, um pouco das estrelas, um pouco do céu.
Porque essa minha cabeça meio viajante consegue ver os anjinhos que já estão do outro lado, olhando por nós.

E tenho mesmo a sorte de, por vezes, ver em sonhos o meu amado tio Humberto.

Obrigada, tio.
Por tudo que você fez quando esteve aqui.
E pelo que continua fazendo daí, nas memórias, nos sonhos, no jeito carinhoso de acolher, no exemplo vivo que deixou em nós.

Obrigada por ainda trazer tanto amor para a gente.
A gente sempre soube que podia contar com você.
Não importa onde você esteja, do lado de cá ou do lado de lá.

E tenho certeza, de todo o coração:
meus filhos não poderiam ter um padrinho melhor.

Te amamos, tio.
Que saudade! Não demore muito a aparecer, tio! Eu te espero no próximo sonho!💛


E você, tem anjinhos no céu que continuam vivos na sua vida e inspiram você a ser alguém melhor? Vou adorar ouvir a sua história. É isso, uma semana maravilhosa com lindas histórias para viver e lembrar! Eu te espero na próxima quarta para mais uma carta.

Com amor,

Luana