Eu estava sentada no sofá da sala da minha mãe.
Em roda, conversávamos, minhas irmãs, meus pais, meu marido, meus cunhados.
Do outro lado da casa, as crianças riam, corriam, inventavam mundos dentro dos quartos, já que o quintal molhado pela chuva de mais cedo, não era seguro para a galerinha de cowboy.

Nós contávamos nossas histórias aqui.
Eles viviam as deles lá.

Até que, de repente, ouvimos o barulho.

O relâmpago acendeu a noite e anunciou a chuva que chegava.

A água caía forte. Pesada. Daquelas que enchem rios, lavam a alma.

Meu marido avisou preocupado:
— Com essa chuva, daqui a pouco vai faltar luz.

Antes que emendasse o enredo, ouvimos um barulho de explosão.

Boom!

As crianças gritaram:
— Mãmãe!!!!
— Mãe, faltou a luz!

Correndo, abriram a porta que dava para a sala. Como uma porteira de boiada, um a um passaram correndo procurando seu porto seguro.

E, na noite clara de chuva, trovão e tempestade, estávamos todos ali juntos, seguros, mesmo no escuro.

Mais calmas, as crianças se misturavam e inventavam brincadeiras. Adivinhavam sombras nas paredes e riam juntas.

Enquanto isso, nós falávamos sobre o apagão.

Fillipe, meu cunhado, comentou algo que ficou na minha cabeça.
Ele explicou:

_Aqui nesse bairro falta luz, mas você tem que ver em Ilhéus. Lá, lotado de turistas, do lado da praia, um lugar paradisíaco, mas falta luz direto.

Isso não é por conta de chuva, não é porque é verão. É falta de infraestrutura mesmo. Continuou.

_As cidades cresceram. A população aumentou. O consumo de energia explodiu como nunca.

Hoje, todo mundo tem ar-condicionado, equipamentos eletrônicos, demandas que não existiam antes. Mas a infraestrutura…
Essa, em muitos lugares como aqui ou em Ilhéus, continua a mesma de décadas atrás.

A rede que servia para poucos, hoje tenta dar conta de muitos. Ou seja, esses lugares não têm infraestrutura para aguentar a demanda atual, não conseguem sustentar a própria evolução.

Passado algum tempo a luz voltou. Cada um de nós voltou para sua casa.

Mas, não passou muito tempo e, adivinha? Novo apagão.

Agora, meia-noite, depois de horas esperando a luz voltar para tomar um banho quente e me aninhar na cama, estava pensando no que Fillipe disse e percebi o quanto isso é importante.

Por muito tempo, quando pensava no futuro, eu só pensava no mais.
Mais trabalho.
Mais projetos.
Mais dinheiro.
Mais crescimento.

Sabe aquela lista infinita de realizações? Por muito tempo eu fui essa pessoa.

Porém, eu raramente pensava na infraestrutura, na energia e no tempo necessários para sustentar esse mais e mais e mais.

Chega uma fase da vida, talvez pela maturidade, talvez pelo acúmulo de funções, talvez pelo excesso de compromissos, em que a gente entende uma coisa essencial:

Mais, sem estrutura, é o projeto para o caos.

E, pensa comigo. Isso vale para tudo.

Não adianta ganhar muito dinheiro se você não tem valores, organização mental e clareza sobre o que fazer com ele.

Não adianta ter uma casa enorme se você não tem dinheiro e tempo para dar manutenção.
Não adianta ter muito trabalho se sua agenda é desorganizada, se o corpo não aguenta, se o casamento vai ficando esquecido pelo caminho.

Quantas relações se perdem não por falta de amor, mas por falta de tempo, presença e cuidado?

E, ao lembrar disso, me veio à memória numa conversa recente.

Eu tinha acabado uma reunião no tribunal e peguei um Uber para ir à casa da minha sogra encontrar meu marido e as crianças.
Em algum momento do trajeto, o motorista riu e disse:
— Nossa, eu estou contando a minha vida toda para você.

Eu respondi brincando que isso era comum.
As pessoas costumam se abrir comigo.
E eu também me abro.

Foi aí que ele me contou a história dele.

Disse que ele e a ex-mulher viviam muito bem.
Se davam bem, se divertiam, tinham uma família que, por fora, parecia perfeita.

Até que, sem perceber, começaram a se desconectar.

Ele muito focado em crescer, em ganhar destaque profissional.
Ela também, muito dedicada à própria carreira.

Vieram as viagens.
Vieram os compromissos.
Vieram os projetos.

E, quando perceberam, já não havia mais intimidade.
Já não havia mais vida comum.
Havia muitos problemas para discutir, e pouco tempo para simplesmente estar e se curtirem juntos.

Quando se deram conta, o casamento já tinha acabado.

Quantos casamentos não passam exatamente por isso?

Crescer é justo.
Crescer é importante.

Mas crescer sem cuidar da infraestrutura: do tempo, da energia, da presença, do vínculo, transforma o “mais” em caos.

Eu tenho certeza, pelas palavras dele, que ele daria tudo para ter crescido menos no trabalho se isso significasse ter preservado o casamento feliz que tinha antes.

São escolhas.
E escolher bem exige clareza.

Antes de desejar mais, talvez a pergunta certa seja:
eu tenho estrutura para isso?

Houve um tempo em que essa falta de estrutura ficou muito clara no meu próprio corpo.

Quando penso hoje no ganho de peso que tive, especialmente no período em que morei nos Estados Unidos, eu entendo: foi exatamente isso.
Acúmulo. Excesso. Falta de sustentação.

O mestrado exigia cerca de 60 horas semanais.
Eu era a única que estudava e trabalhava na turma.
Tinha duas crianças fora do país, uma casa para administrar, uma vida inteira para dar conta.

Para sustentar tudo, eu abri mão do sono.
E, para não dormir, eu comia.

Foi um ciclo silencioso, mas profundamente autodestrutivo.

A vida está sempre nos devolvendo colheitas.
E hoje, aprendi a me perguntar:
o caos que eu vivo agora vem de quais decisões do passado?

Porque, se eu não fizer essa pergunta com honestidade, corro o risco de repetir o erro, mesmo que use outro nome, outro projeto, outro título.

Nem tudo que é possível é saudável.
Nem tudo que é admirável cabe na nossa vida agora.

Escolher foco não é desistir do resto.
É entender o tempo das coisas.

Talvez 2026 não precise de mais peso nas suas costas.
Talvez precise de mais clareza.
Mais ordem.
Mais verdade.

Mais respostas sinceras como: não quero mais isso, isso não faz mais sentido para mim.

Que você possa crescer, sim, mas com estrutura suficiente para sustentar o que realmente importa.

Ps.) Se fizer sentido para você, durante o Desafio Ação com Sentido vamos aprofundar nesse exercício de olhar para dentro para reorganizar suas escolhas e sua vida. Se você sentir que precisa desse espaço para se reconectar e viver com leveza, as vagas estão abertas. Saiba mais no link abaixo:

https://gamma.app/docs/DESAFIO-ACAO-COM-SENTIDO--3nrcvs5s31r5lxk