Era fim de tarde de uma quarta-feira.
Eu e Marcély, minha irmã, estávamos na Renata fazendo as nossas unhas.
A conversa estava animada quando, de repente…
meu telefone tocou.
Janaína?
Atendi e, do outro lado da linha, Jana — sem rodeios — lançou a pergunta:
— Luana, estou assumindo uma função nova e preciso indicar alguém bom e de confiança para me substituir em janeiro. Conversei com Júnia e não teria pessoa melhor para indicar do que você. Aceita?
Surpresa, ainda com os lábios arqueados das risadas que antecediam a ligação, respondi:
— Jana, te substituir nas férias eu não gostaria. Mas assumir a sua antiga cadeira… sim.
Com a voz de quem acabou de ouvir algo inesperado, minha amiga falou:
— Jura? É sério isso? É óbvio que eu te indico! Aliás, não te disse nada antes porque achei que você não queria…
E eu respondi:
— Realmente, ontem não fazia sentido. Mas hoje faz. E eu quero, sim.
Pelo telefone, eu conseguia sentir a empolgação da minha amiga:
— Que hilário! Não cabe a mim escolher, mas, sem dúvida, você é a pessoa perfeita para isso!
Apesar de caminharmos juntas há muito tempo, Jana e eu nos surpreendemos, uma com a outra. O bom é que nossa surpresa nos trazia uma alegria mansa, como o aroma reconfortante do café passado na hora. Desligamos animadas.
Pensando hoje, acho que nossa conversa seria um bom caso para Leonard Mlodinow, e sua obra “O Andar do Bêbado”, um livro que ilustra como o inesperado interfere na nossa vida e como tudo pode mudar num piscar de olhos.
Por meio da minha amiga, a vida me trouxe a oportunidade de fazer uma releitura do trabalho, agora sob um novo ângulo. Aquela conversa colocou em movimento o trem da minha vida profissional. Partindo de um lugar conhecido e confortável para mares nunca antes navegados, rumo a novos desafios em uma terra antiga, mas com o compromisso em dia, renovado.
Desde aquele dia, luas de sol e noites de estrelas se revezaram até que, às últimas luzes do dia, ouvi um som conhecido. Dim dom.
Um pacote esperado acabava de chegar.
Não era uma encomenda qualquer.
Era um manuscrito vivido, cravejado de significados, rico em memórias minhas.
Ao segurar o pacote, já percebi.
Era o livro que esperava.
Um livro que esteve em minhas mãos muitas vezes, mas que, curiosamente, só agora era realmente meu.
Lembro da primeira vez que o vi. Não foi numa estante de livraria. Foi numa cena, em um capítulo da minha própria história.
Era noite. Estávamos na sala de casa. Enquanto eu e minhas irmãs brincávamos, papai estava sentado no sofá. Em silêncio, recostado em uma almofada colorida, segurava à altura dos olhos um livro aberto, com capa cinza, letras vermelhas e o desenho de um rosto masculino pintado a carvão.
Mesmo com o barulho que fazíamos ao redor, os olhos azuis do meu pai transitavam de um lado a outro, como correnteza de um rio, sem se perder.
E eu pensei:
Que livro é esse que parece levar meu pai para outro lugar, mesmo estando aqui?
A curiosidade me devorava por dentro. Não me aguentei. Como uma típica criança, interrompi a viagem do meu pai ao bater de leve os dedos em seu braço e dizer:
— Que livro é esse? Eu também quero ler!
Papai abaixou o livro e encontrou aquela menina de franjinha, saltitante e balançando os bracinhos. Então, com todo carinho, papai me sentou junto a ele e trouxe o livro para as minhas mãos, contando da história que lia.
Daquela cena, anos se passaram.
A memória parecia ter se apagado, como as mensagens que escrevemos na areia da praia.
Mas, há alguns dias, percebi que minha impressão estava errada.
Era noite, estava sentada no sofá da casa dos meus pais, abri a bolsa e peguei o livro que tinha acabado de receber. Rasguei o plástico, trouxe-o ao rosto para sentir seu cheiro (sim, eu amo cheiro de livro novo!) e bastaram as primeiras palavras para que eu fosse fisgada por aquela história.
As crianças brincavam felizes na grama entre os pés de manga. Papai, ao me ver com os olhos fixos no trânsito do papel, sentou-se do meu lado e, movia a cabeça tentando decifrar o que eu estava lendo, até que não se aguentou e perguntou:
— Que livro é esse que você tanto lê?
Levantei a cabeça e o livro para que ele visse a capa:
— Olha! Que legal! É O Profeta.
Reconheceu, meu pai.
— Também estou precisando reler esse livro… ele é muito bom.
— Eu sei — respondi — e sei graças a você.
Naquele instante, me senti como alguém que retorna a um porto seguro e conhecido. E as minhas memórias embarcaram comigo. Na verdade, elas sempre estiveram guardadas em alguma prateleira empoeirada do meu coração.
Sorri ao perceber que, sem nos darmos conta, papai e eu revivíamos a mesma cena de quando eu era criança. Estávamos em posições diferentes mas a vida nos deu o presente de continuarmos juntos na mesma história.
Na simplicidade do momento, percebi a generosa sabedoria da vida se desenhar diante de nós.
A vida é feita de releituras.
Muitas vezes voltamos aos mesmos lugares, às mesmas histórias, às mesmas pessoas — mas nunca com os mesmos olhos. Nunca do mesmo jeito.
Hoje, releio o mesmo manuscrito com outro corpo, outra cabeça, outra história.
E, embora a cena seja diferente, a mensagem escrita, o valor, a presença das pessoas do coração e a essência do que realmente importa, permanecem.
Ontem, ao chegar em casa, me sentei no sofá para ler meu livro.
De repente, senti um peso suave sobre o ombro.
E meus ouvidos foram despertados por uma voz doce:
— Mãe, que livro é esse?
Ri sozinha das releituras da vida.
Puxei a dona da franja curta e do bracinho branquinho para o meu colo e abracei aquela que é a flor mais linda do meu jardim.
Enquanto isso, a vida seguia seu curso para me conduzir a uma nova jornada rica em leituras e releituras que vão renovar em significado e brilho os olhos da criança que fui, os arcos que me sustentam e os amores nascidos do meu próprio ser.
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Obrigada por ler esta carta que escrevi com toda a minha alma. Se fizer sentido para você, leve essa mensagem como presente a outros corações.
Com amor,
Luana
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